Expectativa é de estabilidade da taxa básica de juros por um longo período

Por: Silvio Campos Neto

Em linha com o consenso, o Comitê de Política Monetária (Copom) manteve a taxa Selic em 2% na sua última reunião. Após um novo ciclo de flexibilização monetária, estimulado pelos efeitos da pandemia de covid-19 na economia, as condições vigentes apontam um período de estabilidade dos juros em seu atual patamar, bem inferior ao padrão histórico e considerado estimulativo. No cenário básico da Tendências, que contempla a preservação dos mecanismos institucionais de controle fiscal, espera-se a manutenção da Selic neste nível até o último trimestre de 2021.

O comunicado da decisão não trouxe grandes alterações em relação a agosto. A recuperação da atividade econômica foi descrita como parcial, leitura compatível com as dificuldades ainda enfrentadas pelo setor de serviços. O texto reforçou a incerteza acima do usual com a retomada, principalmente a partir do “arrefecimento do efeito dos auxílios emergenciais”. Talvez em virtude desta incerteza, o Copom não removeu do texto a menção a um eventual “espaço remanescente para a atuação da política monetária”, ainda que ele seja considerado pequeno. A despeito disso, avaliamos como improvável qualquer redução adicional dos juros à frente.

A inflação não foi apresentada de forma preocupante. O Comitê admite que ela deve subir no curto prazo, diante de uma “alta temporária nos preços dos alimentos e a normalização parcial dos preços de alguns serviços”. A menor preocupação com a alta dos alimentos faz sentido, tendo em vista os ajustes esperados nestes mercados após os choques de oferta. Corroborando a leitura ainda benigna do quadro inflacionário, o Copom reiterou as projeções de inflação abaixo das metas até 2021. De acordo com os modelos do Banco Central, as projeções do IPCA no próximo ano estão em 2,9% no cenário híbrido (Selic da Focus e câmbio constante em R$ 5,30/US$) e em 3,0% no cenário com juros e câmbio constantes, ante 3,0% em agosto nos dois cenários. Para 2022, estão em 3,3% no cenário híbrido (ante 3,4% em agosto) e em 3,8% (ante 3,7%) no cenário constante.

Apesar do aumento recente das incertezas, o tema fiscal permanece como fonte de risco de alta à dinâmica inflacionária e como pilar fundamental no cenário básico da instituição. Assim como já observado no último comunicado, o BC manteve a utilização de um “forward guidance“, para direcionar os agentes sobre o cenário mais provável para a política monetária. Em relação a agosto, reforçou o sinal ao alterar o termo “não antevê reduções” para “não pretende reduzir o grau de estímulo”, a menos que as expectativas e projeções de inflação estejam suficientemente próximas das metas em 2021 e, em menor grau, em 2022. Ou seja, é um sinal de que o Banco Central não visualiza altas da Selic tão cedo, ainda que tenha mantido este comportamento das expectativas e o atual regime fiscal como condicionantes ao cenário.

Em suma, o comunicado trouxe um tom relativamente tranquilo com o quadro inflacionário e ainda marcado pela incerteza em torno da retomada pós-estímulos e do panorama fiscal. Diante destes aspectos, permanece a leitura de que a Selic será mantida no atual patamar de 2,0% nos próximos meses, com a perspectiva de inflação abaixo das metas e de retomada gradual, o que reduz lentamente a elevada ociosidade na economia. O cenário básico contempla alta da Selic apenas no final de 2021, movimento que representaria um início de normalização da postura monetária e que levaria a taxa básica a encerrar o próximo ano em 3,0%.

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