Entraves políticos para o “bom governo” colocam em risco a reeleição

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Por: Rafael Cortez

A antecipação do calendário eleitoral aumentou o volume de pesquisas de intenção de voto, especialmente diante da fraqueza do governo. Presidentes com baixa popularidade sugerem incerteza eleitoral e alimentam novos entrantes na disputa. Em seu conjunto, os levantamentos apontam na mesma direção: o presidente perde dos principais nomes especulados como candidatos em eventual cenário de segundo turno. A vantagem do ex-presidente Lula, em particular, mantém tendência de alta. Esse cenário está dentro do esperado e confirma a tendência de alternância de poder em 2022. Os caminhos para a alteração dessa paisagem são pouco alvissareiros para o projeto de reeleição diante dos desafios para mudança no ambiente político e, especialmente, no campo econômico. O tempo joga contra o presidente. Governos que não geram perspectivas futuras de poder tendem ao isolamento.

A instabilidade política da atual conjuntura é consequência direta de o governo não gerar perspectivas futuras de poder. A atual coalizão governista é muito mais um instrumento para a preservação do mandato do que um acordo tendo em vista a eleição de 2022.

As pesquisas mais recentes mostram que os parlamentares têm pouco incentivo para apostar seu futuro eleitoral na aproximação com o presidente. Pesquisa realizada pelo Poder 360 não apenas mostrou recorde de desaprovação da atual administração (64%), mas tendência crescente de apoio ao impeachment (58%).

Ainda, o levantamento XP/Ipespe mostrou o peso da avaliação do governo no quadro eleitoral. O presidente Bolsonaro perde para todos os principais nomes com possibilidade de candidatura, incluindo seu rival, João Doria, governador de São Paulo. A vantagem do ex-presidente Lula na simulação contra Bolsonaro atingiu 19 p.p. (51% x 32%).

A elite partidária não parece ser um apoio confiável para o presidente. A tensão institucional inibe uma aproximação mais ampla entre os partidos e a campanha de reeleição. Até o desenho das “bondades” eleitorais tem sofrido resistência crescente e as indicações presidenciais para os postos judiciais enfrentam dificuldades no Senado.

O presidente, então, esforça-se para revisitar o estilo da sua campanha vitoriosa. A comunicação do governo busca restabelecer o status de “anti-Lula” para o presidente por meio das clássicas referências aos elementos que traduzem o perigo da esquerda e a agenda de corrupção. As tradicionais referências à Cuba, Argentina e Venezuela voltaram para o centro do discurso presidencial, bem como a agenda da “caixa preta” do BNDES.

A indicação de um nome “terrivelmente evangélico” e manifestações de proximidade com os militares dão o tom conservador-nacionalista, completando os itens da campanha Bolsonaro 2.0.

Essa estratégia de comunicação tem poucas chances de sucesso. Eleição presidencial é plebiscito do governo e, portanto, apenas uma mudança na forma como a sociedade enxerga os frutos da atual administração é capaz de gerar mais um mandato residencial.

Há, grosso modo, duas opções disponíveis para o Planalto nesse cenário de recorde de rejeição.

A primeira delas é reforçar a ambição das bondades em ano eleitoral, seja no aumento do novo Bolsa Família ou, por exemplo, no subsídio ao diesel em 2022, sinalizado pelo presidente. Não faltam opções, contudo, isso esbarra no crescente risco fiscal, a partir da percepção de mais um episódio de heterodoxia para driblar a emenda do teto de gastos, em busca de espaço orçamentário.

A via do expansionismo mesmo que se concretize não gera resultados garantidos para o governo. Eventual drible no teto deve trazer desvalorização cambial significativa, reforçando o quadro inflacionário que já desgasta o governo entre as classes de renda mais baixa.

Curiosamente, a governabilidade pode trazer prejuízos ao ciclo econômico. A PEC dos precatórios se tornou simultaneamente peça central na engenharia política do governo e símbolo do risco fiscal.

A outra opção seria a aposta no prestígio da equipe econômica e no aprofundamento das reformas, visando reforçar a confiança dos agentes econômicos prolongando a retomada. Dado o calendário eleitoral, dificilmente o mercado irá apostar suas fichas no pragmatismo econômico.

Essa opção é cada vez mais distante. A agenda econômica sofre com um governo fraco e com a ausência da liderança presidencial na defesa das reformas. A discussão da reforma tributária mesmo em sua versão fatiada desconfigurou-se ao ponto de gerar um movimento de desistência na sua aprovação, diante do risco fiscal decorrente das concessões aos diferentes grupos de interesse. A fraqueza política pode gerar perda de arrecadação para a União, trazendo um elemento adicional de dificuldades para a implementação do Auxílio Brasil.

Assim, os sinais negativos para a economia brasileira avolumam-se, reforçando a fraqueza política do presidente e, por consequência, aproximando o governo do status de “pato manco”. Recorrer às bandeiras tradicionais do bolsonarismo ajuda a mobilizar apoio relevante, mas, definitivamente, não garante o segundo mandato.

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