Efeitos do coronavírus resultam em revisão da projeção de PIB de 1,6% para -1,4%

Por: Alessandra Ribeiro e Thiago Xavier

À luz do recrudescimento da pandemia do coronavírus no mundo e das medidas já adotadas para conter o ritmo de contaminação no Brasil, os efeitos econômicos serão mais expressivos que os inicialmente estimados. Neste sentido, a Tendências revisou a projeção para a variação do PIB deste ano de 1,6% para -1,4%, com a avaliação de que os efeitos econômicos mais pronunciados devem ocorrer no segundo trimestre e início do terceiro, com posterior normalização da atividade econômica.

Estudos sobre os efeitos macroeconômicos de pandemias no mundo estimam as perdas para a taxa de crescimento do PIB e/ou em seu nível a partir do afastamento de pessoas por causa da doença, afetando dias de trabalho e sua produtividade, e pelo número de mortes.  Esses estudos foram retomados a partir da gripe aviária na Ásia em 2006, tendo como base análises de pandemias enfrentadas pelo mundo, sendo que dois grandes eventos foram a peste bubônica no século XIV e a gripe espanhola em 1918. No século XX, autores como Kilbourne (2005) identificam três pandemias importantes que foram: a própria gripe espanhola entre 1918-1920, a gripe asiática em 1957 e a de Hong Kong em 1968.

O estudo “The macroeconomic effects of a pandemic in Europe. A model-based assessment”, da Comissão Europeia, a partir de premissas para a taxa de morbidade (percentual da população infectada), número de semanas perdidas de trabalho e taxa de mortalidade (percentual da população infectada com morte), estima os efeitos econômicos para a comunidade europeia e compara com estudos feitos para os Estados Unidos, a partir de premissas similares. A partir de eventos passados, consideram que os maiores impactos ficam concentrados no período de 3 a 4 meses, ou seja, ocorrem no curto prazo, ainda que consequências mais duradouras sejam observadas, via taxa de mortalidade, afetando a força de trabalho.

Na estimativa do cenário básico, o estudo mostra impactos para a economia europeia de cerca de 1,6 p.p. para a taxa de crescimento, sendo que 2/3 são relacionados a choque de oferta e 1/3 relacionado a choque de demanda. A menor participação do efeito via demanda decorre dos efeitos suavizadores de ações de governos e bancos centrais com políticas fiscais e monetárias de suporte. O estudo mostra que a recuperação nos trimestres seguintes é relativamente rápida. Quando há a adição de choques adicionais sobre a demanda, o efeito negativo tem o limite superior de 4,1 p.p. No caso americano, com premissas similares, o impacto estimado está entre 1,5 p.p. e 5,0 p.p.

Trazendo essa avaliação para o caso brasileiro, a Tendências adicionou em seus modelos tradicionais para o PIB, a variável de número de semanas perdidas de trabalho conforme explorado pelo paper citado – a partir da inclusão da variável número de dias úteis por mês. Além da sensibilização pelas variáveis como: a) crescimento ponderado dos principais parceiros comerciais, b) termos de troca, c) desembolsos do BNDES, d) nível de incerteza.

Dada a elevada incerteza para mensuração dos efeitos econômicos, a Tendências avalia que, além do cenário básico, considerado o de maior probabilidade, o desenho de cenários alternativos podem ser mostrar úteis neste momento.

O cenário básico contempla o crescimento ponderado dos parceiros comerciais de 0,9% no ano – revisado de 2,5% -, incerteza atingindo o pico de 125 pontos (patamar similar ao da crise financeira no término de 2008) no 2º trimestre, seguida de queda gradual nos meses seguintes, e redução de 22 dias úteis no ano.

O índice de incerteza não retorna aos patamares pré-pandemia diante da avaliação de que o cenário político resultante é mais desafiador, o que se traduz em menor ambição da agenda de reformas, com foco em apenas alguns tópicos como a PEC Emergencial e Reforma Administrativa. Sobre os dias úteis, vale a ressalva, de que boa parte de serviços ligados a restaurante, entretenimento e turismo é observada também em fins de semana. Assim, destaca-se que há o risco de subestimação da paralisação de atividade só com a utilização de dias úteis.  Por fim, como exposto no paper citado, os maiores efeitos econômicos são esperados para um período de 3 a 4 meses. Com essas premissas, o PIB brasileiro apresenta queda de 1,4%, sendo que os maiores efeitos negativos são concentrados no 2º trimestre.

Os cenários alternativos são desenhados a partir de hipóteses distintas, em especial, para desempenho econômico dos parceiros comerciais, curva de incerteza e dias perdidos.  O quadro a seguir sintetiza essas premissas.

Quadro: Premissas cenário básico e alternativos

Elaboração: Tendências.

No cenário pessimista, com as premissas adotadas de crescimento ainda mais modesto dos parceiros comerciais, nível de incerteza mais elevado e duradouro, além da perda de 32 dias úteis, a queda estimada para o PIB é de 3,3%, sendo que os maiores efeitos negativos são observados no 2º e 3º trimestres.

Por fim, no cenário otimista, com premissas mais brandas para essas variáveis, o PIB estimado é próximo a zero, com alta de 0,2% neste ano. A figura a seguir apresenta a evolução do PIB dessazonalizado nos três cenários para o ano de 2020.

Figura: Cenários para o PIB – evolução dessazonalizada

Elaboração: Tendências.

Em todos os cenários, ainda que em graus diferentes, a retomada econômica é relativamente rápida. Além de os efeitos do coronavírus gerarem choque exógeno temporário (em especial pela baixa mortalidade), as medidas fiscais e monetária já anunciadas mitigam a intensidade do impacto contracionista e contribuem para a rápida recuperação do nível de atividade, uma vez que visam zelar pela sobrevivência de empresas, em especial pequenas e médias, e também limitar o número de demissões.

Por outro lado, quanto aos riscos ligados à possibilidade de efeitos negativos mais duradouros na economia, um destaque é o tamanho da gravidade do evento sobre a situação financeira das famílias. Apesar de provocar poupança forçada às famílias durante a paralisação econômica – o que em tese contribui para a rápida retomada -, a elevada informalidade atípica do mercado de trabalho brasileiro agrava o choque sobre o rendimento familiar, com impactos negativos e de maior extensão sobre o consumo.

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