Balanço da atividade econômica no início deste ano

Por: Alessandra Ribeiro

Desde o pior momento para a atividade econômica observado na primeira fase da pandemia, quando o PIB registrou queda de 9,2% no segundo trimestre de 2020 na comparação trimestral dessazonalizada, a economia brasileira mostrava trajetória importante de recuperação, ainda que com diferenças expressivas entre os setores, com a flexibilização das medidas de isolamento e respaldo dos estímulos fiscais e monetários. Esse movimento deu alguns sinais de enfraquecimento no final do ano passado e início deste ano, embora de forma heterogênea. Até fevereiro, antes do recrudescimento do quadro pandêmico e da adoção de necessárias medidas de isolamento, pode-se dizer que a economia mantinha a recuperação, ainda que em ritmo menor.

Uma análise da média móvel trimestral de alguns indicadores (quadro 1) permite suavizar as oscilações mensais e, assim, apontar as respectivas dinâmicas subjacentes que evidenciam certa heterogeneidade entre os setores, mesmo que no líquido seja indicada continuidade do crescimento. Percebe-se perda de ritmo mais clara nos segmentos de bens, como pode ser visto pela dinâmica da produção industrial e do comércio, mas, por outro lado, manutenção do ritmo em serviços, que inclusive mostrava recuperação mais tardia. A dinâmica do mercado de trabalho é bastante parecida quando se observa a ocupação pela Pnad e o saldo da pesquisa do Novo Caged. Ambas as pesquisas evidenciam perda de ritmo na mesma métrica, porém ainda registram geração de postos de trabalho.

Quadro 1: Média móvel trimestral – indicadores selecionados

Fonte: IBGE, Caged.

Com o recrudescimento da pandemia e as necessárias medidas de isolamento, o que esperar? Considerando que as medidas foram adotadas a partir de meados de março, estendendo-se até abril, os efeitos mais expressivos devem ser sentidos nesses meses, ainda que em magnitude menor que a observada no mesmo período do ano passado. A menor retração pode ser explicada por quatro principais elementos: a) menor eficiência das medidas de isolamento, como apontam as métricas de mobilidade; b) aprendizado de empresas e famílias no sentido de manutenção de atividades em ambiente restritivo, o que suaviza os efeitos para a atividade econômica; c) maior suporte da demanda externa em conjunto com taxa de câmbio em patamares depreciados; e d) no caso específico da indústria, baixo nível histórico de estoques, o que estimula a produção do setor no curto prazo.

Utilizando os dados do Google Mobility, que mede o fluxo de pessoas em algumas localidades relacionadas a varejo e lazer e transporte público (figuras 1 e 2), nota-se que a média de fluxo de pessoas no período recente (meados de março a meados de abril) na comparação com o período pré-pandemia mostrou queda de 42,5% nos locais relacionados a varejo e lazer e de 32,7% em transporte público. Neste mesmo período do ano passado, a queda no fluxo de pessoas foi de, respectivamente, -55,2% e -49,8%.

Figura 1: Mobilidade – Varejo e Lazer

Fonte: Google Mobility. Elaboração Tendências.

Figura 2: Mobilidade – Transporte público

Fonte: Google Mobility. Elaboração Tendências.

Algumas evidências interessantes, apesar do ambiente restritivo, são observadas em indicadores antecedentes de março, como o fluxo de veículos leves e pesados. Ainda que o fluxo de veículos leves sofra mais diretamente com a restrição à mobilidade, a resiliência do fluxo de pesados nas estradas, considerando o transporte de mercadorias e insumos para a produção, apresenta dinâmica distinta da observada no mesmo período do ano passado (quadro 2). Esse movimento reflete, em especial, o suporte advindo da menor retração da demanda interna, da demanda externa e do processo de normalização dos estoques na indústria.

Quadro 2: Fluxo de veículos nas rodovias pedagiadas

Fonte: ABCR. Elaboração Tendências.

Por sua vez, os indicadores de confiança de consumidores, indústria, comércio e serviços apontam uma perda de dinamismo recente, captando o menor ritmo de recuperação econômica e, mais recentemente, o recrudescimento do quadro sanitário. Mas, de qualquer forma, o nível dos índices sustenta-se bem acima do observado no mesmo período do ano passado (figura 3).

Figura 3: Indicadores de confiança

Fonte: FGV. Elaboração Tendências.

Mesmo contemplando os efeitos mais negativos para os indicadores de atividade de março, alguns exercícios apontam a possibilidade de queda do PIB menor que o esperado no primeiro trimestre deste ano, com retração de 0,2% na comparação trimestral dessazonalizada. Apesar da incerteza envolvendo os indicadores de março, não se pode descartar, inclusive, a possibilidade de resultado ligeiramente positivo. Para o segundo trimestre, a expectativa da Tendências é de queda de 0,9% na comparação trimestral dessazonalizada.

Para o restante do ano, apoiado em nosso cenário base para a vacinação do país, chegamos em julho e agosto com a população acima de 60 anos vacinada (considerando as duas doses) e atingimos 70% da população vacinada em dezembro. Assim, com essa perspectiva de vacinação e, consequentemente, de flexibilização das medidas restritivas, a economia deve apresentar crescimento no terceiro e no quarto trimestres do ano, com taxa média de 2,0%. No ano, a expectativa é de crescimento de 2,7%.  ■

 

 

 

 

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