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PIB, inflação e juros: qual o impacto do conflito entre EUA e Irã na economia brasileira? – Estadão

O resultado dependerá da duração dos ataques, se serão breves ou prolongados, afirmam especialistas

A guerra de Israel e Estados Unidos contra o Irã pode ter impactos negativos na economia brasileira, como aumento da inflação, redução no ritmo de corte da taxa básica de juros, a Selic, e a mudança do cenário positivo do fluxo de capitais para o País, que vinha gerando recordes na Bolsa e dólar cada vez mais baixo.

Segundo avaliações preliminares de economistas ouvidos pelo Estadão, o cenário ainda é de muita incerteza para fazer projeções e tudo irá depender da duração do conflito.

Com o fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã no último domingo, por onde passa um quinto do petróleo mundial, o preço da commodity deu um salto. A cotação do óleo tipo Brent e do petróleo WTI subiu cerca de 8% no início desta semana.

Também o dólar que vinha em uma longa trajetória de queda inverteu a direção após os ataques ao Irã e começou a subir. No meio da tarde desta segunda-feira, 2, registrava alta de 0,80% neste mês.

São exatamente por esses dois canais, o encarecimento do petróleo e a desvalorização do câmbio, que a guerra pode contaminar a economia doméstica e provocar os primeiros estragos.

“Se tivermos um conflito durando dois ou três meses e com o câmbio e petróleo mais desfavoráveis, poderemos ter um aumento de um ponto e meio a dois pontos porcentuais na inflação deste ano”, afirma a economista-chefe da Lifetime Gestora de Recursos, Marcela Kawauti, ressaltando que esse seria o cenário mais pessimista. A projeção base da economista, por enquanto mantida, é de que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deste ano fique em 3,95%.

As hipóteses que embasam a projeção de que a inflação poderia chegar a quase 6% são de que o conflito seja prolongado. Isto é, em meados do ano o câmbio esteja oscilando entre R$ 5,40 e R$ 5,50 e a cotação do barril de petróleo variando entre US$ 85 e US$ 90.

Diesel e fertilizantes

Os efeitos do confronto recaem sobre derivados do petróleo, como o óleo diesel, que é base do frete rodoviário do País. Além disso, a região do conflito também concentra a produção e a logística de fertilizantes, o que pode, se o confronto permanecer por um período mais longo, encarecer o custo de produção das lavouras brasileiras e dos alimentos, observa Marcela.

Essa é a preocupação do setor produtivo. A Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG), por exemplo, alerta que a escalada no Oriente Médio pode pressionar energia, fretes e cadeias produtivas da indústria brasileira.

A entidade destaca, em nota, que as importações brasileiras da região do Golfo Pérsico somaram US$ 42,87 bilhões, cerca de 3,3% do total importado pelo País, com forte presença de combustíveis minerais e fertilizantes.

“Essa dependência reforça a sensibilidade da economia brasileira a oscilações de preços no Golfo Pérsico, especialmente em setores ligados à energia e insumos agrícolas”, diz a entidade.

Para Marcela, a duração do conflito faz muita diferença no impacto sobre preços. “A inflação não se reindexa rapidamente, existem estoques de produtos e há possibilidade de adiamento de compras”, ressalta. A economista pondera que se o confronto durar pouco tempo, o impacto na economia brasileira será mais neutro.

Também Silvio Campos Neto, economista e sócio da Tendências Consultoria, ressalta a importância da duração do confronto para projetar os efeitos sobre a economia brasileira. “No fundo, o que vai definir os impactos é quão longo vai ser esse conflito”, afirma.

Ele observa que um dos impactos do confronto é o aumento do preço do petróleo, que estava perto de US$ 65 o barril, tipo Brent, por causa do excesso de oferta, e agora está rodando um pouco abaixo de US$ 80. “É claro que isso traz um risco inflacionário, mas a princípio não é nada dramático”, diz.

Campos Neto calcula um impacto de 0,2 a 0,25 ponto porcentual na inflação do ano, caso o barril de petróleo se mantenha em US$ 80 e esse aumento de custos seja repassado para preços.

Aversão ao risco e juros

Se, num primeiro momento, os efeitos concretos do conflito sobre as variáveis econômicas não parecem muito dramáticos, na avaliação de Campos Neto, é certo que o confronto aumenta a aversão ao risco e pode estancar momentaneamente o otimismo em relação aos países emergentes.

“Em termos de mercados, tinha um ambiente muito positivo para 2026, que começou o ano com fluxo de capitais para o Brasil, com recordes na Bolsa, dólar cada vez mais para baixo. Tudo isso deve ter uma pausa no momento”, diz Campos Neto.

Em relação ao corte da taxa Selic, hoje em 15% ao ano, o maior nível em 20 anos, com a expectativa de ter a primeira redução na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), marcada para o dia 18 de março, os economistas também enxergam algum efeito da guerra.

Na análise do economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, a incerteza provocada pelo confronto somada ao resultado da prévia da inflação, o IPCA-15, que veio acima do esperado, impedem uma queda mais agressiva na taxa básica de juros na próxima reunião do Copom.

O mercado estava esperando um corte de 0,75 ponto porcentual, mas, diante do atual cenário, poderá ser de 0,5 ponto, avalia o economista. “Começa também a subir no telhado essa queda por conta da insegurança sobre os efeitos da guerra”, afirma .

A consultoria Tendências, por exemplo, tem expectativa de que o corte na taxa básica de juros da próxima reunião do Copom seja de 0,50 ponto porcentual. “Mas poderão surgir argumentos favoráveis para começar com um corte mais devagar, de 0,25 ponto porcentual”, diz Campos Neto. Desta forma, argumenta, o Banco Central ganharia mais tempo para poder avaliar a situação.

Até a próxima reunião do Copom, o BC terá 15 dias pela frente, o que segundo Marcela, da Lifetime, serão decisivos para o colegiado avaliar a duração do conflito e sua conduta em relação ao tamanho do corte na taxa de juros. “Não acho que o BC vá tirar o corte do juros da mesa, mas acho que poderá haver argumentos fortes por um início de corte de 0,25 ponto porcentual.”

Por causa da maior cautela no corte dos juros por parte do BC em razão do risco inflacionário, se o conflito perdurar, poderá haver reflexos no ritmo de atividade.

A economista Juliana Trece, coordenadora do Núcleo de Contas Nacionais do FGV Ibre, diz que há risco de que o confronto tire pontos de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). Ressalta, porém, que ainda é cedo para mensurar. O Boletim Focus do BC projeta crescimento do PIB para este ano de 1,8% e o Ibre, de 1,7%.

Juliana lembra que há o risco de que o preço do petróleo fique alto por bastante tempo e tenha desdobramentos sobre a inflação. “Mas pode ser também que a guerra dure pouco e esse risco seja rapidamente reduzido”, afirma.

Mas, ela pondera que a guerra traz riscos que podem ter efeitos negativos sobre a atividade econômica. A lógica é que, com os juros elevados, os investimentos serão inibidos, o crédito encareça e a atividade perca fôlego, afetando, assim, negativamente o PIB.

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