Desenrola Brasil: análise de Rafael Cortez sobre economia, política e eleições – RedeTV!
- Na Mídia
- 18/06/2026
- Tendências
Em participação no RedeTV! Notícias, Rafael Cortez, economista da Tendências Consultoria, analisa a pesquisa Datafolha sobre o Desenrola Brasil (2ª edição). Cortez também analisa o cenário político.
Desenrola 2.0
A pesquisa do Datafolha mostrou que 68% dos endividados brasileiros dizem acreditar que vão se beneficiar pessoalmente do Desenrola 2.0. É um bom recorte, mas o ponto é que tem muita gente ainda endividada no país.
Uma fatia ainda maior – de 82% – vê impacto positivo para a economia como um todo com o novo programa de renegociação de dívidas do governo Lula. O percentual fica bem acima do daqueles que avaliam o governo como ótimo e bom entre os endividados – 31% – ou aprovam o trabalho do presidente Lula – 46%.
Mesmo entre os não endividados, 39% afirmam ver benefícios para suas finanças pessoais e 73% veem benefícios para a economia em geral – também acima dos 30% que veem o governo como ótimo e bom e dos 45% que aprovam o trabalho de Lula.
Entre os mais otimistas com a segunda edição do Desenrola, que foi lançado no dia 4 de maio, estão os mais jovens, os moradores do Nordeste e os eleitores do presidente Lula.
Esse foi o cenário capturado pelo levantamento, que ouviu 2.004 pessoas em 139 municípios de todo o país entre os dias 12 e 13 deste mês. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos, quando considerada a amostra total dos entrevistados.
O Desenrola 2.0 durará 90 dias e já renegociou, segundo reportagem da Folha, R$ 10 bilhões em dívidas bancárias. É uma das dezenas de medidas do chamado “pacote de bondades” do governo Lula, que busca a reeleição neste ano.
Cortez explica que, pensando da perspectiva do efeito eleitoral, uma das vantagens do governo Lula é justamente poder fazer, em ano eleitoral, programas que ajudem o eleitorado a ter uma maior consistência no voto, uma identificação com o governo, algo que a oposição não consegue fazer. O que a oposição oferta é uma expectativa de que o Brasil pode ser melhor, mas isso é um discurso mais abstrato.
Por isso que, em geral, os governos tendem a ter um bom desempenho em ano eleitoral, mas só funciona se, na verdade, esses programas derem certo. E o que a pesquisa mostra é uma expectativa alta de que eles funcionem.
Então, por isso que não é só o lançamento do programa que precisa ser observado, mas também a operacionalização, porque deve adiantar muito pouco, do ponto de vista eleitoral, fazer o lançamento do Desenrola 2.0, criar toda uma expectativa de que o programa vai ser eficiente na redução do endividamento – e, portanto, na percepção de bem-estar – se lá na frente o eleitor não não sentir os efeitos de fato. O que hoje é percebido como um elemento positivo para o governo pode se tornar também uma arma no sentido de reforçar a decepção com a maneira como o governo Lula fez a sua gestão no terceiro mandato.
De acordo com Cortez, esse é o desafio: se a expectativa é alta, é também maior a responsabilidade de quem vai operacionalizar o governo de fazer com que ele dê certo. É fazer com que o volume de crédito, o volume das dívidas negociadas, de fato seja mais expressivo do que na versão inicial do Desenrola.
Na primeira versão do Desenrola houve uma taxa de renegociação razoavelmente baixa, tanto é que o problema do endividamento acabou voltando também por conta da taxa de juros muito alta.
Os últimos levantamentos já têm mostrado algum sinal de que o governo recupera um pouco da sua popularidade – isso para além dos dilemas da oposição, que também acabam ajudando o governo Lula.
Cenário político
Cortez diz que existe uma tendência de, em ano eleitoral, políticos procurarem fazer agrados ao eleitorado, o que, em tese, é uma parte importante do jogo democrático, afinal, a eleição tem que fazer diferença na maneira como os políticos se comportam.
Mas o desafio sempre é evitar o populismo, evitar que políticas, em nome do ciclo eleitoral, sejam implementadas e, uma vez passada a eleição, as consequências delas sejam mais negativas do que os benefícios gerados.
E, se pensarmos nessa dinâmica ao longo do tempo, muito provavelmente não devemos ter um cenário de desenvolvimento socioeconômico. Afinal, essa ideia de ganhar a eleição por meio de programas de curto prazo não se sustentará e os sintomas aparecerão.
Cortez diz que a tarefa seria construir legislações para evitar que essa tendência de políticos fazerem benefícios em ano eleitoral não estrague as bases da macroeconomia e assim por diante.
Uma dessas maneiras de tentar evitar esse voluntarismo seria fazer algumas proibições do que o político pode fazer ao longo do ano eleitoral, que vão desde participar de inauguração de obras até canalizar recursos para os municípios para algum tipo de programa, por exemplo.
Então, em ano eleitoral, quando começa a ter uma faixa de tempo em que o político não pode fazer muita coisa – sobretudo isso de liberação de recursos –, os deputados, que estão sempre tentando “melhorar a sua vida” – ou seja, facilitar a busca de voto –, querem aumentar os graus de liberdade do que podem fazer.
E aí vem esse projeto de “liberar” essa transmissão de recursos via emendas, consórcios e uma série de outros instrumentos.
Para Cortez, essa é uma política que deveria ter sido controlada, Para ele, não faria mal a ideia de evitar, às vésperas do pleito, vantagens que, no fundo, rompem – e se não rompem, pelo menos entram em tensão – com a ideia de igualdade de competição. É preciso controlar essa vantagem para que nós não percamos o espírito de competitividade, que é uma marca das eleições democráticas.
Cortez diz que, para um país ser democrático, não basta ter eleição. É preciso que essas eleições sejam competitivas, que sejam justas. E essa competitividade passa por algum controle do que quem está em mandato pode fazer em comparação com quem é da oposição ou com um novo candidato que quer tentar participar na disputa, mas acaba não tendo espaço por conta desses mecanismos.
Cortez vê o Congresso derrubando o veto de Lula e liberando verba para cidades antes da eleição como um passo atrás nessa ideia de competitividade justa.
Candidatura de Flávio Bolsonaro
Pilares do bolsonarismo avaliam Flávio Bolsonaro como ativo tóxico após revelação de negócios com Vorcaro.
Cortez diz que, obviamente, do ponto de vista político, não há esse interesse genuíno da cúpula do Congresso em fazer das Casas Legislativas um espaço para investigação judicial nesse momento de tanta incerteza política. Uma CPI em ano eleitoral corre o risco de “perder o controle” e aí a carreira e a sobrevivência eleitoral desses parlamentares ficariam prejudicadas.
Ou seja, a saída política que Flávio Bolsonaro tenta justificar ou tenta apresentar para o seu eleitorado e para a sociedade, nesse momento, enfrenta obstáculos políticos. E aí, na falta de uma mensagem mais forte, Cortez diz que começam a aparecer esses dilemas entre Flávio e os seus apoiadores.
A figura do senador Ciro Nogueira – que também é objeto de investigação dentro desse guarda-chuva do caso Master – mostra um constrangimento em fazer uma defesa um pouco mais enfática do Flávio Bolsonaro.
E é especialmente importante porque Ciro Nogueira é muito representativo dos dilemas da campanha do Flávio, porque ele já foi cotado como um possível vice na chapa presidencial. Nogueira era um dos grandes articuladores do apoio do seu partido, o PP, à candidatura de Flávio Bolsonaro. E hoje há sinais claros de uma delicadeza política.
Na prática, Cortez diz que Ciro Nogueira não quer se expor ainda mais para o seu eleitorado ao fazer a defesa de Flávio Bolsonaro, sendo que ainda há inconsistências nessas narrativas apresentadas por Flávio em sua defesa.
Além disso, também foi ventilada a possibilidade de um encontro de Flávio Bolsonaro com o presidente norte-americano Donald Trump, também nessa lógica de que é preciso criar um fato político novo.
Cortez diz que essas movimentações talvez sejam efeito da mudança na comunicação da campanha, na maneira como Flávio Bolsonaro irá se portar a partir das mudanças na cúpula da campanha do ponto de vista da comunicação.
E esse é o principal desafio, de fato. Não é nem tanto agora para o eleitor, é para os políticos. Cortez explica que Flávio Bolsonaro precisa convencer que ele vai ser o candidato ideal.
Esse não é um tipo de discussão que é bom para quem está tentando construir uma candidatura presidencial.
A dificuldade, para Cortez, é Flávio Bolsonaro se mostrar viável do ponto de vista político em meio a investigações judiciais envolvendo não só o seu nome, mas seu agrupamento político.
Cortez diz que já sabíamos que, em alguma medida, a candidatura do Flávio Bolsonaro iria precisar passar pelo teste de construção do personagem. Uma coisa é Flávio Bolsonaro, senador pelo Rio de Janeiro, filho do ex-presidente Bolsonaro, irmão do Eduardo Bolsonaro e qualquer atributo da sua biografia que dê para ser destacado.
Para Cortez, ele irá se transformar num personagem político presidenciável quando começar a fazer campanha de fato, quando se expuser para o eleitorado nacional, quando precisar fazer um discurso sobre política de educação, política de segurança, taxa de juros e todos os temas que vocês vão imaginar.
Até então, Flávio Bolsonaro nunca precisou fazer isso. Só precisou fazer sinalizações para o seu eleitorado no Rio de Janeiro, precisou fazer acordos relativos à sua posição como senador. Como candidato à Presidência da República, é um outro processo. E por isso que dissemos que nasce um personagem político quando ele resolve disputar a eleição presidencial.
Cortez explica que irá acontecer a mesma coisa com Romeu Zema, com Renan Santos e com todos os nomes que nunca disputaram eleição presidencial. Todos eles precisam enfrentar o mesmo desafio de campanha.
Flávio Bolsonaro precisaria se provar ao eleitorado como um todo, porque irá precisar pedir votos até mesmo daqueles nomes de esquerda, independentes. Não dá para ganhar eleição no Brasil falando só para os seus apoiadores naturais.
Entretanto, Flávio Bolsonaro ainda está se debatendo com questões voltadas a sua candidatura. Cortez diz que é preciso superar isso o quanto antes para ter alguma viabilidade.
Confira o programa completo no vídeo abaixo!