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Infraestrutura e a tripla oportunidade Por Frederico Estrella


A qualidade e disponibilidade de infraestrutura exercem um efeito positivo sobre a atratividade, competitividade e crescimento econômico. De modo geral, o déficit de investimentos nessa área é um problema global. A combinação de crescimento econômico e populacional, investimentos insuficientes e manutenção inadequada de instalações levou a um desequilíbrio entre oferta e demanda de ativos de infraestrutura, que não se limita aos países emergentes. Em economias desenvolvidas, que contam com infraestrutura bem construída, há a necessidade de adequação de estruturas físicas que parecem funcionais, mas que estão técnica e economicamente ultrapassadas.


Estimativas da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em seu estudo Infrastructure 2030, indicam a necessidade de investimentos de US$ 60 trilhões até 2030 para adequação da infraestrutura global - anualmente, algo em torno de 3,25% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial. São investimentos para expansão da infraestrutura econômica (como transportes, geração de energia) e para o provimento de infraestrutura social (construção de prédios públicos, unidades educacionais, de saúde, presídios).

O Brasil passou nas duas últimas décadas por um processo de expansão da atividade econômica e do consumo das famílias acompanhado por transformações econômicas e sociais, que resultaram em impactos expressivos sobre a demanda por infraestrutura. O aumento da oferta de crédito, com a explosão das vendas de veículos, a redistribuição de renda com entrada no mercado de uma nova classe média, a interiorização do desenvolvimento e a expansão da atividade agropecuária e extrativa mineral para atender a crescente demanda asiática por commodities são alguns exemplos.

Nesse contexto, os esforços públicos e privados visando a ampliação da oferta de transportes, energia, saneamento e serviços públicos não acompanhou o ritmo de expansão da economia e a mudança nos padrões de consumo da população. O país defronta-se com gargalos generalizados em sua malha de infraestrutura. São estrangulamentos bem documentados em estudos setoriais e governamentais que resultam em perda de produtividade para a economia.

É presente em todo o mundo a percepção do papel crescente do setor privado na expansão desses serviços. No Brasil, as diferentes esferas de governo têm despertado para a necessidade - e para a oportunidade - de retomarem processos de concessão em setores mais tradicionais. A construção e gestão da infraestrutura de suporte a atividades tradicionalmente providas pelo poder público (infraestrutura social) tem também mobilizado governos, com algumas experiências em curso.

Sob a ótica do setor privado, a maior parte dos segmentos de infraestrutura representa uma alternativa de investimentos de longo prazo, em um contexto de declínio estrutural das taxas de retorno. A literatura especializada e a prática de investimentos apontam que inversões em infraestrutura, quando bem estruturadas, são capazes de aumentar o retorno esperado do portfólio de investidores, preservando uma relação equilibrada de risco e retorno. É uma classe de ativos adequada a diferentes perfis de investidores ao longo de suas várias fases, incluindo-se operadores estratégicos (construtoras e operadores globais), fundos de pensão, seguradoras ou até mesmo as famílias - via indústria de fundos e/ou aquisição de participações por "family offices".

Para assegurar a eficiência e rentabilidade dos investimentos, e mesmo a escolha da alocação de recursos entre as diversas oportunidades, são indispensáveis análises fundamentadas ao longo das fases de um processo de concessão, incluindo-se a etapa de execução - investimentos e operação. A adequada estruturação e avaliação de projetos de infraestrutura é um imperativo que não se limita aos entes públicos. Esses estudos, amplos para a identificação de oportunidades e potencialidades, porém bastante focados quando direcionados para a análise de um investimento específico, incluem avaliação do potencial de crescimento do país, com o desenvolvimento de cenários possíveis, prováveis e até mesmo de baixa probabilidade, visando a definição da evolução dos indicadores operacionais e financeiros da concessão, sustentação do plano de negócios e identificação de riscos.

A maioria dos investimentos exige conhecimento das potencialidades de crescimento regional, com identificação dos impactos dos padrões de desenvolvimento locais e crescimento da renda sobre a movimentação de cargas e pessoas. Quais regiões já atendidas ou que poderão ser atendidas crescerão mais? Quais são as necessidades de integração entre os diversos modais para viabilizar os investimentos? Qual o perfil desse crescimento que será mais favorável à movimentação de cargas ou de pessoas? São perguntas que precisam ser feitas a cada investimento.

A análise criteriosa dos mecanismos regulatórios, que diferem necessariamente entre os segmentos de infraestrutura, é também um aspecto indispensável para a construção de planos de negócio com eficiência econômica, assim como para a identificação e mitigação de riscos futuros.

A definição dos mecanismos mais apropriados para o financiamento dos investimentos ao longo das diferentes fases da concessão envolve o conhecimento dos riscos associados a cada um dos estágios (etapa pré-operacional, fase inicial e maturidade), que atraem diferentes perfis de investidores.

As possibilidades de investimentos em infraestrutura são amplas, com uma agenda ambiciosa e complexa para os próximos anos. Trata-se de uma tripla oportunidade, capaz de gerar crescimento econômico, aumento do bem-estar social e retorno financeiro de longo prazo, com maior desenvolvimento do mercado de capitais. Porém, o planejamento e a execução das estratégias, com análise minuciosa dos fatores de riscos e retorno, serão determinantes para o sucesso dos projetos e para assegurar o retorno dos investimentos para o setor privado e para a sociedade.

 

Frederico Estrella é economista e diretor de investimentos e negócios da Tendências Consultoria Integrada.

 

Artigo publicado no jornal Valor Econômico, em 07/05/2013.

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